segunda-feira, 21 de maio de 2012

Enredos e reflexões - Um ano do Desenrolando a Fita!

Pela primeira vez reunimos nosso grupo e convidados para celebrar um ano do Desenrolando a Fita. 
No Sedes Sapientiae assistimos juntas ao filme Minhas tardes com Margueritte.



Que gostoso compartilharmos nossas emoções! Algumas de nós já tinham assistido ao filme e ainda assim nos emocionamos até às lágrimas. A abertura foi feita pela coordenadora e idealizadora do grupo, a profa. Elisa Pitombo.





 Estava friozinho mas o café e a alegria de estarmos juntas nos aqueceu - além dos petit fours!




A profa. Beatriz Stucchi também se juntou ao grupo de discussões.




  Obrigada aos que colaboraram e estiveram presentes. 
Parabéns, Desenrolando a Fita! 


terça-feira, 24 de abril de 2012

Preciosa




 
Título original: Precious
Diretor: Lee Daniels
Elenco: Gabourey Sidibe, Mo'Nique, Paula Patton, Mariah Carey, Lenny Kravitz.
Duração: 110 min.
Ano: 2009
País: EUA
Gênero: Drama

Nossa discussão começou com a fala da Elisa: “Nossa, acho que carregaram na tinta! É muita desgraça para uma pessoa só!” Assim é Preciosa, uma história de esperança (EUA, 2099), um filme impactante sobre uma adolescente que enfrenta enormes dificuldades, numa vida recheada de tragédias.

Preciosa vive com a mãe no Harlem, subúrbio de Nova Iorque, num pequeno apartamento escuro e pobre. É negra, obesa, foi abusada pelo pai, de quem teve uma filha com Síndrome de Down que é criada pela avó, e está grávida dele novamente.

A mãe é de uma crueldade que fez algumas de nós ter de parar para respirar durante o filme. Acusa a filha de ter feito “seu homem” ir embora, usa de violência física e psicológica com constantes xingamentos e depreciações, obriga Preciosa a fazer todos os afazeres domésticos, incluindo a comida, que deve ingerir em grandes quantidades para que fique cada vez mais obesa. Permitiu o abuso da filha pelo pai em prol de sua própria conveniência e considera que toda a família deve ficar com ela para que possa tirar partido dos benefícios sociais dessa proximidade.

No início, a adolescente fala pouco e suas feições são carregadas. Ela não tem voz como pessoa. Mesmo com a oposição da mãe, ela frequenta a escola, onde fica alheia e não consegue ler ou escrever. Preciosa se refugia em suas pequenas fantasias onde se imagina com um namorado branco e bonito, vive num mundo de glamour e se vê amada. Talvez tenha sido esse o caminho para que ela mantivesse sua sanidade.

Quando percebe que Preciosa está grávida novamente, a diretora da escola regular recomenda que ela procure uma escola alternativa. E a alternativa vem cheia de significados – “alter” é outro e é a partir do olhar do outro que Preciosa passa a existir. As relações que pode estabelecer com a professora e com os colegas fazem com que possa se reconhecer. A nova escola é um ambiente que dá possibilidades e oportunidades, um ambiente “suficientemente bom”.

Pensamos na importância dessa professora e o quanto ela age psicopedagogicamente. Dá voz aos alunos, todos eles com problemas de comportamento e de aprendizagem. Quando Preciosa diz à professora que não sabe nada, essa retruca: “Todo mundo sabe alguma coisa”. Preciosa, certo dia, responde à pergunta da professora: “Onde você está?” e então pode dizer: “Estou aqui, estou existindo aqui hoje”.

No começo as letras e as palavras para ela são indistintas: “Para mim o que está escrito é tudo igual”. Num processo em que vai diferenciando as letras e as palavras ela pode também se perceber, nomear seus conflitos,  refletindo sobre eles e externando sua dor. A linguagem, como afirmou Vygostky, organiza o pensamento.

Preciosa passa a trocar um diário com a professora, a ter um interlocutor que possibilita que ela assuma sua autoria de pensamento. Descobre o prazer de conhecer e por meio da aprendizagem consegue romper com o ciclo de violência onde está imersa. Reflete sobre suas possibilidades e faz escolhas, escolhas vinculadas aos seus valores e crenças.

Embora o desenrolar dramático da história não tenha conduzido exatamente ao que se pode chamar de “final feliz”, sentimo-nos, de certa maneira, como sugere o título do filme: cheias de esperança. A esperança de que sempre haverá uma saída onde houver um olhar que reconheça o outro, um olhar que permita o encontro, onde se possa SER.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Preciosa, nosso próximo encontro!!



Preciosa nos faz refletir o quanto a cidadania e a marginalização podem ser presentes na escola. Essa adolescente, com um histórico familiar de abusos, é deixada de lado na sala de aula até que é encaminhada para uma escola que atende estudantes com problemas de adaptação na escola regular.

A partir da sensibilidade e do olhar de uma professora, esta jovem passa a perceber-se como pessoa e encontra forças para romper com  o ciclo de violência e exclusão.

Teremos um rico debate no próximo sábado, 14/04, as 16:00 hs!

Participe!

Desenrolando a Fita

terça-feira, 20 de março de 2012

Nenhum a Menos - Discussão





  • Título original: Not One Less/ Yi Ge Dou Bu Neng Shao
  • Diretor: Zhang Yimou
  • Elenco: Wei Minzhi, Zhang Huike, Tian Zenda, Gao Emman, Sun Zhimel
  • Gênero: Drama
  • Duração: 106 min
  • Ano: 1999
  • País: China

                 O filme, vencedor do Leão de Ouro como melhor filme no festival de Veneza, 1999, apresenta a realidade de uma escola rural como espaço onde aparecem conflitos sociais, desigualdades e crianças que são obrigadas a deixar a escola para ajudar a família no sustento da casa.

                 No momento em que o professor da escola primária de Shuiquan precisa se afastar por um mês para cuidar a mãe doente, a última alternativa encontrada foi substituí-lo por uma menina de treze anos, Wei, que assume a turma e passa a ser a responsável pelas crianças. Tem o dever de impedir que as crianças abandonem a escola. Mal a jovem inicia seu trabalho, uma aluna precisa sair da escola e, em seguida, um dos meninos, Huike, o que mais questionava e desafiava a professora, abandona a escola para trabalhar na cidade. A professora, no entanto, não se conforma com a perda de mais um aluno e resolve ir atrás do menino.  

                 Como era de se esperar, a professora-menina encontrará muitas dificuldade tanto na organização e disciplina na sala de aula, quanto na viagem que empreende em busca de Huike. Embora desprovida de experiência e preparo, é possível perceber sua determinação e desejo de resolver os problemas, especialmente o de trazer o aluno de volta. Ela consegue mobilizar seus alunos a encontrarem meios de fazê-la chegar até a cidade e procurar o menino. Enquanto ensina, aprende a pensar formas de resolver o problema. Até o trabalho braçal a turma enfrentou conseguir dinheiro para a viagem da professora. 

                 O filme passa muitas lições, uma delas certamente é a de que fatos cotidianos podem ser transformados em desafios pedagógicos a serem resolvidos pelos alunos de forma criativa e engajada, além de contribuir para compreensão de realidades bem adversas.  

               Com criatividade, intuição, um pouco de medo e muita determinação, a professora consegue trazer o menino de volta, melhorar a condição precária da escola, além de criar vínculos entre todos.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Nenhum a Menos


Nosso próximo encontro será para discutirmos o filme chinês "Nenhum a menos".
Baseado em fatos reais, é a história de uma adolescente que substitui o professor do ensino básico de uma escola rural na China e que para receber seu pagamento não pode deixar que nenhum aluno deixe de frequentar a escola.
A menina com poucos conhecimentos e nenhuma experiência transforma a escola com sua vontade e obstinação.

Esperamos vocês para mais este encontro!
10/3 - sábado - 16:00 hs.

Desenrolando a Fita

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Minhas tardes com Margueritte

(La tête en friche)

Diretor: Jean Becker
Elenco: Gérard Depardieu, Gisèle Casadesus, Maurane, Patrick Bouchitey, Jean-François Stévenin, François-Xavier Demaison, Claire Maurier, Sophie Guillemin
Produção: Louis Becker
Roteiro: Jean Becker, Jean-Loup Dabadie
Duração: 82 min.
Ano: 2010
País: França
Gênero: Drama
Classificação: 12 anos



A partir do livro de Marie-Sabine Roger, o filme Minhas tardes com Margueritte  trata da doçura e da profundidade que os encontros podem alcançar. Nesse filme delicioso, acontece um encontro improvável entre Margueritte, uma nonagenária culta, apreciadora dos clássicos franceses, que diariamente vai à praça ler e apreciar a paisagem e Germain, um quarentão quase iletrado que entre um bico e outro descansa na mesma praça, conta os pombos e lhes dá nomes.

Aliás, dar nomes às coisas é algo que se mostra importante para Germain. Nesse processo de nomeação, entre cenas da vida adulta de Germain e de sua infância, o filme vai revelando a relação difícil com a mãe -- que o julgava um nada e que o tratava por "isto" -- desprezando-o e mal disfarçando o peso que o filho representava em sua vida. Nos paralelos que o filme faz das situações da vida adulta de Germain com sua infância, aparece o professor que faz troça de seu nome quando com ele compõe um poema em que ironiza as dificuldades de Germain nas atividades escolares. Assim que Margueritte lhe dá um dicionário, que não é etimológico, entre as primeiras palavras que procura estão os nomes das pessoas que ama, além de seu próprio nome. Em uma das primeiras cenas do filme, para desgosto do prefeito da cidadezinha, Germain escreve novamente seu nome no “Túmulo das crianças que morreram pela França”. Ao inscrever seu nome naquele monumento, Germain se coloca como uma daquelas crianças, como se, a exemplo delas, tivesse tido sua infância roubada pelas circunstâncias da vida.

A partir dos encontros no parque com Margueritte, que com aparente despretensão puxa conversa com Germain, podemos perceber como a palavra ouvida e lida vai organizando a vida da personagem, o que nos remete à afirmação de Vygotsky de que a linguagem organiza o pensamento. A partir das histórias lidas por Margueritte, Germain vai relendo  sua própria vida e se apropriando, com os recursos de que dispõe, de uma linguagem que não pode se desenvolver plenamente quando ele era criança. Esse mote está presente também no título original: a expressão francesa “en friche” remete a não cultivado, ou seja, Germain encarna a personagem cuja cabeça não foi cultivada, mas que agora tem a possibilidade de florescer e frutificar.

Margueritte vem ocupar uma função materna importante, suprindo Germain com ternura e delicadeza, na forma de uma tremenda mediadora de leitura que se impõe delicadamente, com  gestos de aceitação, entendimento e valorização. Esse resgate da auto-estima de Germain, promovido pelo contato com Margueritte, é similar a uma atitude desejável na prática psicopedagógica, de qualificar pequenas ações para que a partir delas o aprendente possa ir se abrindo às palavras e superando seus medos. Entretanto esse percurso tem também suas quedas, como na cena em que, irritado por não encontrar no dicionário as palavras que procura, Germain o devolve a Margueritte, dizendo: “Tentei aprender, mas dói demais”. Também nós encontramos, no atendimento psicopedagógico, aqueles que sucumbem temporariamente a essa dor do aprender,  para alguns demasiado pesada, um obstáculo difícil de transpor.

Esse movimento de Germain, de ir configurando em palavras sua grande sensibilidade, causa estranheza no grupo de amigos que frequenta: ninguém entende muito bem por que o homem rude, embora extremamente generoso, põe-se agora a falar de livros e a renovar seu vocabulário. Nem mesmo sua namorada entende, no início, o que está mobilizando Germain e provocando nele um olhar diferenciado para sua própria história.

Entre os pontos altos do filme estão os diálogos entre as personagens e, particularmente, a apropriação e o uso que Germain faz das palavras, na forma de tiradas linguísticas, o que garante ao espectador algumas boas risadas.


Ficha técnica obtida em :
http://www.cineclick.com.br/criticas/ficha/filme/minhas-tardes-com-margueritte/id/2723